Na fĂsica quântica, o vácuo nĂŁo Ă© completamente vazio. Ele Ă© atravessado permanentemente por minĂşsculas flutuações, como vibrações muito fracas. Esses movimentos geralmente permanecem invisĂveis. Mas, em certas condições, podem ser amplificados e dar origem... a partĂculas.
Este mecanismo, chamado de amplificação paramétrica, pode ser comparado a um fenômeno simples. É como um balanço ao qual se dão impulsos regulares no momento certo. O movimento se amplifica progressivamente. Aqui, são as flutuações do vácuo que são "impulsionadas" até se tornarem observáveis.
Para testar essa ideia, os cientistas usaram um gás de átomos de hĂ©lio resfriado a uma temperatura extremamente baixa, prĂłxima do zero absoluto. Nesse nĂvel de frio, a matĂ©ria adota um comportamento muito particular, regido pelas leis quânticas.
O gás é mantido no lugar por feixes de laser. Ao variar a intensidade de um desses lasers de maneira regular, os pesquisadores provocam uma vibração controlada do sistema. Essa oscilação atua como os impulsos no balanço e amplifica certas flutuações.
Resultado: excitações aparecem no gás. Chamam-nas de fĂłnons, que podem ser vistos como pequenas "ondas" de energia se propagando no meio, e sĂŁo assimilados a "quasipartĂculas". Mas uma dificuldade permanece: algumas dessas excitações tambĂ©m podem vir da temperatura residual do gás, mesmo que muito baixa.
Para se assegurar de que elas provĂŞm realmente do vácuo quântico, os pesquisadores buscaram uma assinatura especĂfica. Eles mostraram que esses fĂłnons aparecem em pares estreitamente ligados, num fenĂ´meno de emaranhamento quântico. Isso significa que suas propriedades sĂŁo fortemente correlacionadas, de uma maneira impossĂvel de explicar com a fĂsica clássica.
Distribuição das velocidades observada: o pico central corresponde ao condensado, enquanto os dois picos laterais representam as excitações criadas, propagando-se em sentidos opostos. Um esquema ilustra também seu emaranhamento quântico. Crédito: V. Gondret et al., 2025 American Physical Society Esta observação é importante, pois confirma que as flutuações do vácuo serviram efetivamente de ponto de partida. Até agora, este emaranhamento tinha sido previsto pela teoria, mas nunca observado diretamente neste tipo de sistema.
Para alĂ©m desta demonstração, a experiĂŞncia abre novas perspectivas. Ao aumentar o nĂşmero dessas excitações, os pesquisadores poderĂŁo estudar como elas interagem entre si. Este comportamento coletivo ainda Ă© difĂcil de descrever com as ferramentas teĂłricas atuais.
Estes trabalhos interessam tambĂ©m aos cosmĂłlogos. Com efeito, mecanismos similares poderĂŁo ter ocorrido logo apĂłs o Big Bang, quando o Universo estava em plena expansĂŁo e partĂculas apareceram a partir de flutuações iniciais.
Este tipo de experiência atua portanto como um modelo em miniatura do cosmos. Ao recriar essas condições em laboratório, os cientistas dispõem de uma ferramenta preciosa para compreender melhor fenômenos que ocorreram na origem do nosso Universo.
Este avanço está descrito na revista
Physical Review Letters .