Uma experiência conseguiu transportar antiprótons num camião de um extremo ao outro do local principal do CERN, primeiro passo essencial para a entrega de antimatéria a outros laboratórios na Europa.
A equipa da
experiência BASE no CERN conseguiu manter uma nuvem de 92 antiprótons num dispositivo inovador, uma armadilha de Penning criogénica portátil, e depois desligar o dispositivo da instalação, carregá-lo num camião e dar continuidade à experiência após esta operação de transporte. Trata-se de um verdadeiro feito: a antimatéria é muito difÃcil de conservar, pois aniquila-se ao contacto com a matéria.
Imagem ilustrativa
Esta primeira mundial constitui um teste, sendo o objetivo final transportar antiprótons até outros laboratórios na Europa, como a Universidade Heinrich-Heine de Düsseldorf (HHU), onde poderiam ser realizadas medições de altÃssima precisão das propriedades da antimatéria.
As partÃculas de
antimatéria são uma categoria de partÃculas presentes na natureza, quase idênticas à s partÃculas de matéria ordinária, mas com cargas e momentos magnéticos invertidos. Segundo as leis da fÃsica, matéria e antimatéria devem ter sido criadas em quantidades iguais durante o Big Bang. As partÃculas e as antipartÃculas deveriam ter-se aniquilado mutuamente rapidamente, deixando para trás um Universo vazio.
No entanto, o Universo contém principalmente matéria: esta assimetria intriga os cientistas há décadas, levando-os a suspeitar que existem diferenças invisÃveis que poderiam explicar por que razão a matéria permaneceu, enquanto a antimatéria desapareceu quase por completo.
Para compreender melhor a antimatéria, a experiência BASE visa
medir com precisão as propriedades dos antiprótons, como o seu momento magnético intrÃnseco, para depois comparar essas medições com as dos protões. Mas depara-se com uma dificuldade:
"As máquinas e equipamentos da fábrica de antimatéria, onde está instalada a experiência BASE, geram flutuações do campo magnético que limitam a precisão das medições, explica Stefan Ulmer, porta-voz da experiência BASE.
Camião a transportar a armadilha BASE-STEP cheia de antiprótons (Imagem: CERN)
Essas flutuações são minúsculas, da ordem de um milésimo de milionésimo de tesla, ou seja, 20 000 vezes inferiores ao campo magnético da Terra; não podem ser detetadas fora do edifÃcio. No entanto, dada a extrema precisão das medições realizadas pela experiência BASE para obter uma compreensão mais refinada das propriedades fundamentais dos antiprótons, temos de tirar a experiência do edifÃcio", explica Stefan Ulmer.
A fábrica de antimatéria do CERN é o único local do mundo onde antiprótons podem ser produzidos, armazenados e estudados. Dois desaceleradores sucessivos, o
Desacelerador de Antiprótons (AD) e o
Anel de Antiprótons de Muito Baixa Energia (ELENA), fornecem antiprótons de baixa energia a várias experiências: quanto mais baixa for a sua energia, mais fácil é armazená-los e estudá-los.
A experiência BASE, que detém o recorde de conservação de antiprótons (mais de um ano), inventou um método inovador para dar o passo seguinte: transportar antiprótons num espaço autónomo, fora da linha do feixe, para poder realizar investigações mais precisas e também partilhá-los com outras equipas. Para isso, desenvolveu a armadilha
BASE-STEP, concebida para armazenar e transportar antiprótons.
"O objetivo do dispositivo BASE-STEP é capturar antiprótons e entregá-los aos nossos laboratórios de precisão, em espaços especÃficos no CERN, na Universidade Heinrich-Heine de Düsseldorf, na Universidade Leibniz de Hanôver e talvez noutros laboratórios capazes de realizar medições de altÃssima precisão em antiprótons, o que infelizmente não é possÃvel na fábrica de antimatéria, explica Christian Smorra, responsável pelo projeto BASE-STEP.
Validámos a viabilidade do projeto com protões no ano passado, mas o que conseguimos hoje com antiprótons é um enorme passo em frente para alcançar o nosso objetivo."
A armadilha BASE-STEP é suficientemente pequena para poder ser carregada num camião e passar por portas padrão de laboratório; também é capaz de suportar choques e vibrações devido ao transporte. O aparelho atual, que inclui um Ãman supercondutor, um sistema de arrefecimento criogénico a hélio lÃquido, fontes de energia e uma câmara de vácuo que captura as antipartÃculas usando campos magnéticos e elétricos, pesa 1000 kg: é portanto muito mais compacto do que o dispositivo BASE ou qualquer outro sistema utilizado para estudar antimatéria.
"Ir até ao nosso primeiro destino, o nosso laboratório de precisão na Universidade Heinrich-Heine na Alemanha, demoraria pelo menos oito horas, continua Christian Smorra.
Isso significa que o Ãman supercondutor da armadilha terá de se manter a uma temperatura inferior a 8,2 kelvins durante todo esse tempo. Portanto, além do hélio lÃquido, precisarÃamos de um gerador para alimentar um refrigerador criogénico no camião. Estamos atualmente a estudar as possibilidades." Seja como for, o desafio mais importante está na chegada ao destino: transferir os antiprótons para a experiência sem que eles desapareçam.
"Transportar antimatéria é uma empresa inovadora e ambiciosa, e felicito a colaboração BASE por este notável sucesso. Estamos no inÃcio de uma fantástica aventura cientÃfica que nos permitirá aprofundar os nossos conhecimentos sobre a antimatéria", conclui Gautier Hamel de Monchenault, diretor de investigação e cálculo cientÃfico no CERN.