A ideia dominante atual é que a vida extraterrestre se manifestaria sob a forma de um sinal único e evidente, seja natural ou tecnológico.
No entanto, um estudo recente nos convida a mudar completamente de perspetiva: em vez de rastrear indícios isolados, seria melhor procurar padrões globais, que seriam discernidos de forma 'anormal' em vários planetas próximos.
O problema das biossinaturas clássicas, como certos gases atmosféricos, é que elas também podem ser produzidas por processos não biológicos. Esses falsos positivos complicam a busca. Da mesma forma, as tecnossinaturas baseiam-se em hipóteses arriscadas sobre a inteligência extraterrestre.
Para contornar essas dificuldades, investigadores liderados por Harrison B. Smith e Lana Sinapayen imaginaram uma "biossinatura agnóstica". Esta não depende de nenhuma química particular, mas baseia-se em duas ideias simples: a vida pode propagar-se entre os planetas, por exemplo por panspermia, e pode modificar o seu ambiente. Ao modelar esses processos, a equipa mostrou que a vida deixa vestígios estatísticos mensuráveis, mesmo que nenhum planeta mostre um sinal evidente.
Na sua simulação, agentes representando a vida migram entre sistemas estelares e transformam os planetas. Os resultados indicam que, se a vida está ativa, os planetas próximos uns dos outros tornam-se mais semelhantes do que o acaso produziria. Esta ligação entre posição e aparência constitui um sinal de vida potencial, detetável em grande escala.
Ao agrupar os mundos de acordo com as suas propriedades observáveis e a sua posição, os investigadores podem identificar aglomerados onde a vida provavelmente atuou. Esta abordagem privilegia a fiabilidade: reduz os falsos positivos, mesmo que deixe passar alguns planetas habitados. Uma vantagem valiosa quando o tempo de observação é limitado.
O modelo assume que a vida pode viajar entre estrelas e terraformar os planetas, tornando-os mais semelhantes ao seu mundo de origem. A longo prazo, grupos de planetas vizinhos tornam-se anormalmente semelhantes. Crédito: Harrison B. Smith
Segundo Harrison B. Smith, procurar a vida pelos seus efeitos em grande escala evita a necessidade de uma definição perfeita. Lana Sinapayen acrescenta que mesmo uma vida fundamentalmente diferente da nossa deixaria vestígios detetáveis ao propagar-se e modificar mundos. O futuro desta abordagem implica conhecer melhor a diversidade natural dos planetas sem vida, para distinguir o que é devido à biologia.
Embora os resultados ainda se baseiem em simulações, eles abrem caminho para uma nova classe de métodos de deteção. Os investigadores esperam integrar no futuro dados planetários detalhados e modelos galácticos mais realistas. Mas a ideia está lançada: a vida pode ser detetada não pela sua química exata, mas pelos padrões que tece através do Universo.
A panspermia como meio de dispersão da vida
A panspermia é uma hipótese segundo a qual a vida poderia viajar de um planeta para outro, transportada por meteoritos, cometas ou mesmo grãos de poeira. Esta ideia não diz respeito apenas ao nosso Sistema Solar: microrganismos poderiam sobreviver a uma viagem interestelar se protegidos das radiações e do vácuo. No modelo dos investigadores, a panspermia permite que a vida colonize novos planetas, partindo de um mundo de origem. Este mecanismo cria ligações entre mundos distantes.
Se a vida se propaga assim, os planetas próximos uns dos outros terão mais hipóteses de serem colonizados pela mesma estirpe. Com o tempo, tornar-se-ão mais semelhantes entre si, pois a vida modifica o seu ambiente. É essa similaridade anormal que pode ser detetada como um sinal de vida, mesmo que as formas de vida sejam muito diferentes das da Terra.
A panspermia continua a ser uma hipótese, mas é apoiada por experiências que mostram a resistência de certos microrganismos no espaço. Se se confirmar, ofereceria um meio para a vida se espalhar e, portanto, deixar uma assinatura em grande escala.