A matéria escura, omnipresente mas indetetável diretamente, molda as galáxias e os seus movimentos. Um novo estudo propõe uma versão mais dinâmica desta substância, que poderia assim ser capaz de interagir consigo mesma.
Num artigo publicado pela
Physical Review Letters , o fĂsico Hai-Bo Yu, da Universidade da CalifĂłrnia em Riverside, explora uma hipĂłtese alternativa ao modelo dominante. Este descreve uma matĂ©ria escura dita fria e sem colisões. No entanto, algumas estruturas observadas no Universo parecem demasiado densas para serem explicadas por este enquadramento clássico.
Uma galáxia distante deformada por lente gravitacional (JVAS B1938+666), revelando uma perturbação compacta mas invisĂvel representada a branco no recorte. CrĂ©dito: Devon Powell / Max Planck Institute for Astrophysics
A abordagem estudada baseia-se numa matĂ©ria escura autointeragente: as suas partĂculas colidem e trocam energia. Este comportamento modifica profundamente a estrutura interna dos halos de matĂ©ria escura, esses vastos invĂłlucros que rodeiam as galáxias.
Estas interações podem desencadear um fenĂłmeno chamado colapso gravotĂ©rmico. Este processo concentra a matĂ©ria escura em nĂşcleos extremamente compactos. Cada aglomerado assim formado atingiria uma massa equivalente a um milhĂŁo de SĂłis, mantendo-se totalmente invisĂvel.
Um primeiro indĂcio aparece num sistema de lente gravitacional chamado JVAS B1938+666. Uma anomalia na imagem de uma galáxia distante indica a presença de um objeto denso e nĂŁo detetado diretamente. Este tipo de distorção permanece difĂcil de conciliar com uma matĂ©ria escura sem interação.
Um segundo caso diz respeito Ă corrente estelar GD-1, na Via Láctea. Esta estrutura fina de estrelas apresenta um entalhe acompanhado por um esporĂŁo. Segundo os investigadores, um objeto compacto invisĂvel teria atravessado este fluxo, deixando uma assinatura gravitacional nĂtida.
Terceiro caso, a galáxia satélite Fornax (também chamada Galáxia Anã do Fornalha) alberga um aglomerado de estrelas invulgar, chamado Fornax 6. A sua compacidade intriga os astrónomos. Um núcleo denso de matéria escura poderia atuar como uma armadilha gravitacional, capturando estrelas de passagem e formando um agrupamento apertado.
O interesse desta hipĂłtese reside na sua unidade. Os trĂŞs fenĂłmenos, contudo observados a escalas muito diferentes, seriam explicados por um mesmo mecanismo fĂsico. As densidades medidas correspondem naturalmente Ă s previsões da matĂ©ria escura autointeragente.
Esta pista não derruba ainda o modelo dominante, mas abre uma via coerente para interpretar observações até agora isoladas. Dados futuros permitirão testar mais finamente esta ideia e precisar a verdadeira natureza da matéria escura.