Em janeiro de 2022, o vulcĂŁo Hunga Tonga-Hunga Ha'apai entrou em erupção, liberando imensas quantidades de metano na atmosfera. No entanto, os instrumentos de satĂ©lite observaram uma destruição simultânea desse gás de efeito estufa. Como isso Ă© possĂvel? A resposta está na pluma vulcânica, onde concentrações recordes de formaldeĂdo foram detectadas. Este composto Ă© resultado da decomposição do metano.
Este fenĂ´meno baseia-se em um mecanismo que envolve aerossĂłis de sal de ferro. Durante a erupção, cinzas vulcânicas e água do mar salgada foram projetadas na estratosfera. Sob efeito do sol, essas partĂculas liberam cloro, um elemento muito reativo que decompõe o metano. Esse processo já havia sido observado sobre o Saara, mas nunca na estratosfera. Matthew Johnson, da Universidade de Copenhague, observa que essa semelhança Ă© totalmente inesperada.
A erupção do vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha'apai em 15 de janeiro de 2022. Crédito: Tonga Geological Services
Graças aos satĂ©lites Sentinel-5P equipados com o instrumento TROPOMI, os cientistas acompanharam a nuvem de formaldeĂdo por dez dias. Maarten van Herpen, autor principal do estudo, explica que o formaldeĂdo persiste apenas algumas horas, o que prova que a destruição do metano continuou por um longo perĂodo. Os pesquisadores precisaram corrigir os dados para levar em conta a altitude incomum e as interferĂŞncias do diĂłxido de enxofre, confirmando assim a realidade do fenĂ´meno.
A erupção liberou cerca de 300 gigagramas de metano, o equivalente às emissões anuais de mais de dois milhões de vacas. Paralelamente, a pluma vulcânica eliminava quase 900 megagramas de metano por dia. Esse duplo efeito mostra que os vulcões podem tanto poluir quanto limpar a atmosfera, embora o balanço global não favoreça a limpeza.
O metano Ă© um potente gás de efeito estufa, 80 vezes mais eficaz que o COâ‚‚ para reter calor em um perĂodo de 20 anos. No entanto, ele persiste menos tempo na atmosfera, cerca de uma dĂ©cada. Reduzir as emissões de metano poderia, portanto, desacelerar o aquecimento a curto prazo, agindo como um freio de emergĂŞncia climática. No entanto, a redução do COâ‚‚ continua indispensável para um equilĂbrio de longo prazo.
Imagem de satĂ©lite de 16 de janeiro de 2022 mostrando a nuvem de formaldeĂdo (em azul) medida pelo TROPOMI. CrĂ©dito: van Herpen et al. (2026)
Esta descoberta pode inspirar tecnologias que visem eliminar o metano da atmosfera. Os mĂ©todos atuais tĂŞm dificuldade em comprovar sua eficácia, mas o estudo mostra que os satĂ©lites podem medir diretamente sua destruição. Jos de Laat, do Instituto Real MeteorolĂłgico dos PaĂses Baixos, explica que essa abordagem permite verificar se as tĂ©cnicas funcionam. Os pesquisadores esperam assim desenvolver soluções seguras e eficazes para combater o aquecimento.
Além disso, esses resultados obrigam a revisar o balanço global do metano. Até agora, os modelos ignoravam o efeito das poeiras atmosféricas, como as cinzas vulcânicas, na degradação do metano. Matthew Johnson insiste na necessidade de corrigir essas estimativas para melhor compreender o ciclo do metano e seu impacto no clima.