Pesquisadores de Nova Iorque pegaram embriões humanos saudáveis e conseguiram modificar seu código genético concentrando-se em uma única letra. A ferramenta utilizada, chamada edição de base, atua como um corretor tipográfico ultrapreciso. Diferentemente das primeiras versões do CRISPR, ela não corta o DNA ao meio. Os resultados, depositados no servidor
bioRxiv, mostram alta precisão e poucos erros.
O que os pesquisadores realmente fizeram nos embriões
A equipe de Dieter Egli (Universidade Columbia) trabalhou em embriões humanos no estágio de uma única célula, logo após a fertilização. Eles miraram três genes especÃficos. O primeiro, PCSK9, comanda a fabricação do "mau" colesterol. Desativá-lo reduziria o risco de infarto. Os outros dois, HBG1 e HBG2, fabricam uma proteÃna do sangue no feto. Imitá-los permitiria atenuar doenças como a anemia falciforme. Para cada um, os pesquisadores substituÃram uma letra quÃmica: transformaram uma adenina (A) em guanina (G).
Para entender, vejamos o DNA como uma frase muito longa escrita com quatro letras: A, T, G, C. Cada letra é chamada de nucleotÃdeo. Uma única letra mal colocada pode causar uma doença grave. Aqui, a edição de base agiu como uma borracha apagando um A para escrever um G no lugar. No conjunto dos embriões, essa operação foi bem-sucedida três vezes em quatro para PCSK9, mas apenas uma vez em duas para HBG1/2. Por que essa diferença? Segundo o estudo, tudo depende dos pequenos RNAs guia, essas moléculas que direcionam a ferramenta para a zona correta.
A vantagem técnica é real: a edição de base não provocou grandes mutações nem anomalias cromossômicas, ao contrário do que se observava com o antigo CRISPR-Cas9. É uma primeira mundial em embriões saudáveis. No entanto, a equipe permanece cautelosa. Eles notaram que a introdução da ferramenta na forma de RNA bloqueava o desenvolvimento dos embriões. Foi necessário, portanto, usar outro método, em proteÃna, mais estável. Apesar desses progressos, o problema do mosaicismo persiste: algumas células mantêm a versão original do gene. Enquanto esse defeito existir, nenhum médico proporá essa técnica na clÃnica.
Por que modificar um embrião divide tanto os especialistas
De um lado, alguns cientistas veem um avanço médico. Evitar que uma criança nasça com uma doença genética grave, como fibrose cÃstica ou coreia de Huntington, seria uma revolução. A edição de base torna essa hipótese mais realista do que há cinco anos. Mas do outro lado, eticistas soam o alarme. Para eles, abrir essa porta é aceitar o risco de desvios eugenistas. PoderÃamos um dia modificar não uma doença, mas a cor dos olhos, a altura ou até traços intelectuais.
O pesquisador chinês He Jiankui fez a experiência em 2018: ele implantou embriões modificados com uma técnica perigosa, e duas meninas nasceram. Desde então, a comunidade cientÃfica mundial condenou essa prática.
No entanto, nos Estados Unidos, nenhuma lei federal proÃbe a modificação genética de embriões para fins reprodutivos. Apenas a falta de financiamento público freia as pesquisas. Dieter Egli afirma que é contrário a qualquer "melhoria" genética, mas reconhece que seus trabalhos poderiam ser desviados. Hank Greely, bioeticista em Stanford, resume o problema: com alguns milhões de dólares, uma clÃnica privada poderia tentar a aventura.