Uma colisão ocorrida nos primórdios da Via Láctea deixou vestígios ainda reconhecíveis hoje, quase 12 bilhões de anos depois.
Nossa Galáxia nem sempre teve o tamanho atual. Ela cresceu formando estrelas, mas também absorvendo galáxias menores. Astrônomos acabam de esclarecer um dos episódios mais antigos dessa história. Ele teria ocorrido há cerca de 11,8 bilhões de anos, ou seja, 1,8 bilhão de anos antes de outra grande fusão já conhecida.

Visão artística da colisão entre a jovem Via Láctea e a galáxia anã Low-energy-Kraken-Heracles, há cerca de 12 bilhões de anos.
Crédito: NASA, ESA, Joseph Olmsted (STScI)
A galáxia absorvida já não existe como tal. Os pesquisadores a batizaram de Low-energy-Kraken-Heracles, ou LKH. Ela teria contido estrelas com uma massa total de aproximadamente 500 milhões de massas solares. Naquela época, essa quantidade representava uma parcela importante da jovem Via Láctea. O encontro, portanto, contribuiu muito cedo para sua formação.
Como encontrar um evento tão antigo? A equipe estudou 39 aglomerados globulares localizados nas regiões internas da nossa Galáxia. Esses grupos muito densos reúnem, cada um, dezenas de milhares a vários milhões de estrelas. Sua grande idade faz deles testemunhas de períodos cujos outros vestígios desapareceram em grande parte.
As observações do telescópio espacial Hubble permitiram medir com precisão a idade desses aglomerados e sua composição química. Os pesquisadores compararam especialmente seu teor de elementos mais pesados que o hélio. Os dados da missão Gaia também ajudaram a distinguir as diferentes populações de aglomerados presentes no centro da Via Láctea.
Três grupos surgiram então. Um corresponde aos aglomerados formados na jovem Via Láctea. Outro está associado à Gaia-Sausage-Enceladus, uma galáxia absorvida há cerca de 10 bilhões de anos. Entre os dois encontra-se uma terceira população, cujas idades e composição indicam uma origem diferente: LKH.
A maior parte de sua matéria estelar teria se concentrado nos 6 quiloparsecs centrais da Via Láctea, ou seja, em uma região de aproximadamente 19.600 anos-luz ao redor do centro galáctico.
O trabalho prossegue com novos aglomerados globulares observados pelo Hubble. Sua datação poderá permitir identificar outras fusões antigas e esclarecer progressivamente a cronologia das primeiras etapas de formação da Via Láctea.