A água da torneira, que consumimos diariamente, pode às vezes abrigar micróbios surpreendentemente resistentes. É o que revela uma publicação recente, chamando a atenção para organismos microscópicos frequentemente ignorados, mas cuja presença pode representar um problema de saúde pública.
As amebas de vida livre são organismos unicelulares naturalmente presentes no meio ambiente. A maioria delas é inofensiva, mas algumas espécies podem provocar doenças graves nos seres humanos. A sua capacidade de sobreviver em condições extremas torna-as particularmente preocupantes nos sistemas modernos de água.
Estes microrganismos suportam temperaturas elevadas e resistem a desinfetantes comuns, como o cloro. A sua robustez permite-lhes colonizar as redes de distribuição de água, inclusive aquelas que consideramos seguras. Podem até instalar-se de forma duradoura nas canalizações.
O aquecimento global está a ampliar progressivamente as zonas onde estas amebas termofílicas podem prosperar. Regiões outrora poupadas veem agora surgir estes organismos, aumentando os riscos durante atividades aquáticas recreativas.
Outro aspeto pouco conhecido é o seu papel de "veículo" para outros patógenos. Ao albergarem bactérias ou vírus no interior das suas células, as amebas protegem-nos dos tratamentos de desinfeção. Este fenómeno pode favorecer a propagação de micróbios resistentes a antibióticos na água.
Perante esta situação, os cientistas preconizam uma abordagem integrada que ligue a saúde humana, a gestão da água e a vigilância ambiental. Insistem na necessidade de melhorar as ferramentas de deteção e de adotar tecnologias de tratamento mais eficazes para prevenir infeções.
O mecanismo do "cavalo de Troia" microbiano
Algumas amebas de vida livre têm a capacidade de englobar outros microrganismos, como bactérias ou vírus, e mantê-los vivos no interior das suas células. Este processo, frequentemente comparado ao famoso cavalo de Troia, permite que patógenos se escondam e escapem aos tratamentos de desinfeção concebidos para os eliminar na água. A ameba serve assim como um escudo protetor.
No interior da ameba, estes micróbios hospedados encontram um ambiente favorável. Não só estão protegidos de agentes químicos como o cloro, como também podem multiplicar-se. Quando as condições se tornam propícias, podem ser libertados no ambiente, por vezes em maior número ou com características modificadas. Esta libertação pode ocorrer quando a ameba morre ou se desloca.
Este fenómeno tem implicações importantes para a resistência a antibióticos. As bactérias albergadas por amebas podem trocar genes de resistência entre si ou com outros micróbios neste ambiente confinado. Depois, quando estas bactérias são libertadas, podem propagar essa resistência nos sistemas de água ou até infetar seres humanos com uma menor sensibilidade aos tratamentos.
A compreensão deste mecanismo ajuda a explicar porque certos patógenos persistem apesar dos esforços de purificação da água. Mostra que o combate aos micróbios na água não pode contentar-se em direcionar-se apenas aos agentes patogénicos individuais de forma isolada. É preciso também ter em conta estas múltiplas interações entre diferentes organismos, o que pode guiar-nos rumo a métodos de tratamento mais completos e adaptados.