Trabalhos recentes apresentam a hipótese de que nossa estrela teria empreendido uma longa jornada desde o coração galáctico, em companhia de muitos astros similares. Essa perspectiva abala os conhecimentos estabelecidos sobre a história do nosso sistema e da própria galáxia.
Para reconstituir o passado solar, os astrônomos examinam "gêmeos solares", ou seja, estrelas cujo tamanho, temperatura e composição química são muito próximas às do Sol. Uma equipe de pesquisa baseou-se nos dados do satélite Gaia da Agência Espacial Europeia, cujo mapeamento de precisão excepcional abrange bilhões de estrelas, para observar cerca de 6.600 desses gêmeos solares localizados em nossa vizinhança galáctica.
Estrelas semelhantes ao nosso Sol realizaram uma migração massiva desde o centro da Via Láctea, há aproximadamente 4 a 6 bilhões de anos. Crédito: NAOJ
A análise desses astros permitiu estimar suas idades. Os pesquisadores constataram que um número significativo deles, cerca de 1.550 estrelas, tinha entre 4 e 6 bilhões de anos, uma faixa que inclui o Sol e seus 4,6 bilhões de anos. Essa concordância indica que esses objetos não estão dispersos aleatoriamente, mas provavelmente compartilham uma origem comum que é possível reconstituir.
O Sol estaria assim atualmente a cerca de 10.000 anos-luz mais distante do centro galáctico do que seu presumível local de nascimento, o que demonstra um deslocamento significativo. Segundo os cientistas, nossa estrela teria feito parte de um vasto grupo de astros expulsos para o exterior há vários bilhões de anos. Esse fenômeno estaria ligado à formação de uma barra rotativa bem no coração da Via Láctea, a qual concentrou a matéria e ejetou as estrelas ao redor.
Essa viagem pode ter tido repercussões no surgimento da vida terrestre. De fato, as regiões internas da galáxia são muito mais densas e agitadas, com uma ocorrência maior de eventos violentos próximos como as supernovas. Ao migrar para a periferia, o Sol provavelmente encontrou um ambiente mais tranquilo, propício ao estabelecimento de condições estáveis.
Os cientistas pretendem dar continuidade a esses trabalhos graças aos futuros dados do Gaia e a um estudo aprofundado da composição dos gêmeos solares. O objetivo é identificar estrelas nascidas exatamente no mesmo local e na mesma época que o Sol, revelando assim verdadeiros "irmãos e irmãs" estelares. Esses avanços permitirão compreender melhor a evolução conjunta de nossa galáxia e de nosso Sistema Solar.
Migrações estelares
As migrações estelares correspondem aos deslocamentos das estrelas no interior de uma galáxia, frequentemente sob o efeito de forças gravitacionais e de estruturas internas. Na Via Láctea, esse fenômeno é frequente e pode ser desencadeado por interações com os braços espirais, as barras galácticas ou outras estrelas. Esses movimentos redistribuem os astros ao longo de períodos de vários bilhões de anos.
Uma barra galáctica, como a que existe no centro de nossa galáxia, é uma estrutura alongada de estrelas e gás em rotação. Sua formação pode desestabilizar as órbitas das estrelas próximas, levando-as para o exterior ou para o interior. Esse mecanismo explica como grupos inteiros de estrelas, à semelhança do Sol e de seus gêmeos, puderam migrar juntos desde as regiões centrais para a periferia.
As migrações estelares influenciam a evolução das galáxias. Elas redistribuem a matéria, o que afeta a formação de novas estrelas e a composição química das diferentes zonas. Por exemplo, as estrelas em migração transportam elementos pesados, modificando a química das regiões onde se instalam.