Pesquisadores da Universidade McGill desenvolveram um novo mĂ©todo para dobrar folhas planas em cascas lisas e curvas, capazes de passar, conforme necessário, de um estado flexĂvel para um estado rĂgido que pode suportar cargas.
Graças a um modelo de origami no qual incorpora elementos semelhantes a cabos, a equipe pode controlar tanto a forma tridimensional final do material quanto seu grau de rigidez. Segundo os pesquisadores, essa inovação, um "módulo de lente de dupla curvatura", poderia avançar a tecnologia aplicada a objetos como tendas de emergência, robôs de morfologia variável e tecidos inteligentes.
"As estruturas dobráveis existentes nos forçam a fazer um compromisso: se sĂŁo lisas e curvas, tendem a ser flexĂveis e flácidas; se sĂŁo sĂłlidas e rĂgidas, geralmente tĂŞm formas angulares, irregulares, pouco práticas e difĂceis de ajustar apĂłs a montagem", explica Damiano Pasini, coautor do estudo e professor de engenharia mecânica na Universidade McGill.
Isso representa uma restrição importante para tecnologias como dispositivos portáteis, implantes mĂ©dicos, robĂ´s flexĂveis e estruturas espaciais implantáveis que, para suportar bem as forças exercidas externamente, geralmente precisam ter formas lisas e resistĂŞncia confiável.
Para contornar esse problema, a equipe projetou um modelo de origami com dobras curvas que forma superfĂcies lisas de dupla curvatura, como esferas ou toros (formas de rosquinha). A estrutura assim formada pode ser "travada" em um estado rĂgido capaz de suportar cargas. Graças Ă adição de tendões internos cuja tensĂŁo pode ser ajustada, Ă© possĂvel reprogramar posteriormente essa mesma estrutura para torná-la ultra-flexĂvel ou muito rĂgida, sem modificar sua forma nem seus materiais.
Cabos ajustáveis para modular a rigidez O novo modelo de dobra combina dobras curvas e retas, o que permite transformar folhas planas em superfĂcies contĂnuas e lisas, em vez das formas angulares caracterĂsticas do origami clássico.
A partir de uma forma curva desejada (esfera, toro, vaso), os pesquisadores recorreram Ă geometria diferencial - que engloba as teorias matemáticas relativas ao ladrilhamento, em origami, e Ă s superfĂcies desenvolvĂveis - e em seguida Ă otimização numĂ©rica para calcular o esquema de dobras exato necessário para que, uma vez dobrada e travada, a casca de origami adote a forma desejada.
Em seguida, cortaram a laser e dobraram folhas de papelão de acordo com esse esquema, antes de montá-las para formar cascas, e depois inseriram cabos finos ("tendões") em locais precisos.
"Ao tensionar ou relaxar os tendões, medimos a evolução da rigidez e demonstramos que as cascas podiam passar de um estado flácido e flexĂvel para um estado rĂgido e resistente Ă torção e Ă flexĂŁo", conta o professor Pasini.
Validados com o auxĂlio da teoria da mecânica, do origami rĂgido e de simulações geomĂ©tricas, os resultados confirmam que a cinemática da dobra, ou seja, os movimentos do objeto, Ă© viável. As simulações tambĂ©m confirmaram que as superfĂcies permaneciam lisas e que o esquema podia ser ampliado e repetido em mosaico.
Um novo paradigma de design Segundo Damiano Pasini, esses trabalhos abrem caminho para um novo paradigma de design de metamateriais inspirados no origami.
"Nossa abordagem abre novas perspectivas para o design de estruturas curvas portantes, implantáveis e adaptativas. Nossos resultados questionam a ideia de que seria necessário recorrer a materiais complexos ou a sistemas externos para obter rigidez ajustável. Eles demonstram, em vez disso, que uma geometria inteligente pode realizar grande parte do trabalho."
O estudo O artigo intitulado "Smooth doubly curved origami shells with reprogrammable rigidity", por Morad Mirzajanzadeh e Damiano Pasini, foi publicado na Nature Communications.