🦗 Os sons de uma floresta do Jurássico reconstruídos

Asas fossilizadas permitiram ouvir sons de insetos desaparecidos há cerca de 165 milhões de anos.

Os pesquisadores estudaram 20 asas pertencentes a nove espécies descobertas na Mongólia Interior, na China. Esses insetos do Jurássico Médio eram aparentados com os atuais gafanhotos e grilos. Nesses animais, o macho pode produzir um chamado esfregando uma parte de uma asa contra a outra. As asas fósseis conservaram vestígios desse mecanismo sonoro.

Reconstrução de um mamífero e de um inseto do Jurássico.

Reconstrução de um mamífero e de um inseto do Jurássico.
Crédito: Chuang Zhao

Para entender como um fóssil pode revelar um som, é preciso observar as asas bem de perto. Uma fileira de pequenos dentes roça contra outra parte da asa. Seu espaçamento, assim como o tamanho da área que vibra, influencia diretamente a frequência produzida. Essas estruturas estão suficientemente bem conservadas em alguns fósseis para serem medidas.

A equipe comparou essas medidas com as de insetos atuais e com os laços de parentesco entre as espécies. Em seguida, modelos computacionais permitiram estimar a frequência e a forma geral dos chamados. Um método de aprendizado de máquina complementou o trabalho para estimar seu provável ritmo.

Várias espécies teriam emitido sons em torno de 5.000 Hz, uma frequência comparável à de alguns grilos atuais. Mas uma espécie, Sigmaboilus peregrinus, se destaca. Seu chamado teria ultrapassado 20.000 Hz, entrando assim na faixa dos ultrassons.

Por que emitir sons em frequências tão altas? Os autores apresentam várias hipóteses. Chamados agudos podem permitir que os machos se comuniquem com fêmeas próximas, ao mesmo tempo que são mais difíceis de detectar para alguns predadores. Frequências diferentes também podem ajudar várias espécies que vivem no mesmo local a não encobrir mutuamente seus chamados.

Os pesquisadores mencionam especialmente os primeiros mamíferos e outros pequenos predadores capazes de ouvir esses insetos. A pressão exercida por esses animais pode ter favorecido uma diversificação dos sinais.

O método agora abre a possibilidade de reconstruir outras paisagens sonoras desaparecidas quando os órgãos produtores de sons estão suficientemente bem fossilizados. Novos espécimes podem permitir descobrir quais frequências predominavam em diferentes ambientes e como as comunicações animais mudaram ao longo da evolução.