Fragmentos de tumores coletados de pacientes agora podem servir como ponto de partida para centenas de modelos cultivados em laboratório.
Uma equipe internacional desenvolveu quase 700 deles, abrangendo 25 tipos de câncer. Essa coleção deve permitir que os cientistas testem mais amplamente possibilidades de tratamento em células que permanecem próximas dos cânceres humanos.

Para estudar um medicamento antes dos testes em seres humanos, os laboratórios costumam usar células cancerosas capazes de se multiplicar por muito tempo. O problema é que as linhagens disponíveis representam apenas uma parte da diversidade observada nos pacientes. Alguns cânceres raros, certos perfis genéticos ou algumas formas resistentes aos tratamentos são, portanto, muito mais difíceis de reproduzir.
A nova coleção parte diretamente de amostras tumorais provenientes de pacientes. Os cientistas procuraram cultivar essas células e estabelecer modelos que pudessem ser utilizados repetidamente. O resultado amplia significativamente a variedade disponível para comparar o comportamento de diferentes cânceres em condições controladas.
Essa diversidade é muito importante.
Dois tumores localizados no mesmo órgão podem, de fato, reagir de maneiras muito diferentes a um medicamento. Seu DNA pode conter alterações distintas que modificam seu crescimento ou sua sensibilidade ao tratamento. Com muitos modelos à disposição, as equipes podem investigar quais perfis respondem a uma molécula e quais resistem a ela, em vez de tirar conclusões com base em poucas linhagens amplamente utilizadas.
Essas células também podem ser usadas para investigar as vulnerabilidades específicas de cada tumor. Os cientistas podem, por exemplo, perturbar determinados genes e observar se as células continuam a se multiplicar. Quando uma célula cancerosa depende fortemente de um gene específico para sobreviver, essa dependência pode se tornar uma possibilidade a ser examinada para desenvolver um futuro tratamento direcionado.
O interesse da coleção também está em seu compartilhamento. Os modelos devem ser acessíveis à comunidade científica internacional, com informações que permitam conhecer suas características. Assim, vários laboratórios poderão trabalhar com as mesmas referências, comparar seus resultados e selecionar modelos adequados a uma questão específica sem precisar recriar toda a coleção.
Essas culturas, contudo, não substituem um tumor real no corpo nem os ensaios clínicos. Um câncer interage com os vasos sanguíneos, o sistema imunológico e muitas células vizinhas, elementos que uma cultura celular não reproduz completamente. Um medicamento eficaz nesses modelos ainda precisa superar várias etapas antes de poder ser oferecido aos pacientes.
A próxima etapa consiste, entre outras coisas, em explorar esse recurso em larga escala para associar as características genéticas dos tumores às suas reações aos medicamentos. Os modelos também devem integrar os recursos utilizados pelo Cancer Dependency Map, um programa que busca elaborar um mapa das vulnerabilidades exploráveis de diferentes cânceres.