⚡ Um novo método para prever supercondutores de alta temperatura

A eletricidade circula nos nossos cabos, mas uma parte da energia perde-se sob a forma de calor. Essas perdas poderiam ser evitadas graças aos supercondutores: materiais capazes de transportar corrente sem qualquer resistência.

Investigadores da Universidade Penn State desenvolveram um novo método para prever quais os materiais que poderiam tornar-se supercondutores, abrindo caminho para aplicações que mudariam profundamente as nossas tecnologias.

Visualização prevista por DFT da distribuição eletrónica num supercondutor de chumbo, com estruturas atómicas específicas formadas.

Visualização prevista por DFT da distribuição eletrónica num supercondutor de chumbo, com estruturas atómicas específicas formadas.
Crédito: Superconductor Science and Technology (2025)

A supercondutividade é explicada há muito pela teoria BCS, segundo a qual os eletrões se associam em pares (chamados "pares de Cooper") a temperaturas muito baixas para circular sem obstáculos. Mas este modelo só funciona em condições de frio extremo, próximas do zero absoluto (-273 °C), o que limita a sua utilização prática. A equipa de Zi-Kui Liu combinou então duas ferramentas teóricas: a teoria do funcional da densidade (DFT), que simula o comportamento dos eletrões, e a teoria zentropy, que descreve como um material passa do estado supercondutor para o estado normal.

A DFT permite prever as propriedades eletrónicas de um material por cálculo, sem necessidade de experiências dispendiosas. Ao observar a densidade eletrónica, os investigadores podem detetar configurações que se assemelham às dos pares de Cooper, mas a temperaturas mais elevadas. Graças a esta abordagem, identificaram comportamentos supercondutores em metais como o cobre, a prata e o ouro, que até agora não eram considerados como tal.

A teoria zentropy, por sua vez, combina a física quântica e a mecânica estatística para compreender como um material perde a sua supercondutividade de acordo com a temperatura. Permite nomeadamente estimar a temperatura crítica de transição, um parâmetro essencial se quisermos utilizar estes materiais no dia a dia. O objetivo é agora aplicar este método a uma imensa base de dados de materiais de modo a identificar novos candidatos promissores.

As próximas etapas incluem a previsão do comportamento dos materiais sob diferentes pressões e o seu teste em laboratório. Se estas previsões se confirmarem, poderão levar à descoberta de supercondutores que funcionam a alta temperatura, ou mesmo à temperatura ambiente. Um tal avanço transformaria a maneira como produzimos, transportamos e utilizamos a eletricidade.

Zi-Kui Liu resume o desafio: não se trata apenas de explicar o que já conhecemos, mas de construir um quadro teórico para descobrir o desconhecido. Ao ligar várias teorias até agora separadas, a sua equipa abre novas perspetivas para uma energia mais eficiente e sustentável.

Teoria BCS e pares de Cooper

A teoria BCS, proposta por John Bardeen, Leon Cooper e John Schrieffer, descreve a supercondutividade a baixa temperatura. Explica que os eletrões não circulam sozinhos mas em casais, os "pares de Cooper". Estes pares deslocam-se em conjunto na rede cristalina, sem colidir com os átomos, o que suprime a resistência elétrica.

Mas estes pares são frágeis e quebram-se logo que a temperatura aumenta. É por isso que os supercondutores clássicos só funcionam a temperaturas muito baixas, obtidas com dispendiosos sistemas de arrefecimento. Este modelo não consegue explicar a supercondutividade dita "não convencional", descoberta em famílias de materiais como os cupratos.

Teoria do funcional da densidade (DFT)

A DFT é um método de cálculo em mecânica quântica que permite prever as propriedades de um sistema baseando-se na densidade eletrónica em vez de em equações complexas de funções de onda.

Desenvolvida nos anos 1960, tornou-se uma ferramenta indispensável para a química e a ciência dos materiais, pois permite previsões fiáveis com recursos computacionais razoáveis.

No caso dos supercondutores, a DFT não descreve diretamente a formação dos pares de Cooper, mas pode revelar indícios de comportamentos favoráveis à supercondutividade. Ao associá-la a outros modelos como a zentropy, permite explorar mais rapidamente fenómenos complexos e identificar materiais potencialmente revolucionários.