Uma bactéria presente no trato urinário humano possui uma capacidade inesperada: ela pode fabricar testosterona.
Os pesquisadores estudaram bactérias cultiváveis provenientes de amostras de urina coletadas antes de uma biópsia da próstata. O método buscava aquelas capazes de transformar hormônios esteroides. Entre os micróbios isolados, três cepas de uma espécie chamada Actinobaculum massiliense chamaram a atenção.

Cultura em meio cromogênico utilizado para diferenciar vários microrganismos responsáveis por infecções urinárias.
Via Wikimedia Commons.
Em laboratório, essa bactéria pode utilizar uma molécula naturalmente presente no corpo, a DHEA, para produzir testosterona. A DHEA já serve como matéria-prima para que as células humanas fabriquem vários hormônios. O resultado revela, portanto, que um micróbio que vive em nosso organismo também pode realizar parte dessa química.
Para entender como isso acontece, a equipe procurou as instruções inscritas no DNA da bactéria. Dois genes, chamados dirA e dirB, produzem enzimas capazes de modificar essas moléculas. Uma enzima é uma proteína que facilita uma reação química específica. Aqui, essas proteínas transformam progressivamente a estrutura da DHEA até obter hormônios mais ativos.
As duas enzimas, porém, não trabalham da mesma maneira. Experimentos e simulações moleculares indicam que a DirA pode realizar várias transformações. A cavidade onde ela acomoda a molécula é suficientemente ampla para que esta mude de posição. A DirB dispõe de um espaço mais estreito e só consegue realizar parte das reações.
Essa descoberta interessa especialmente à pesquisa sobre a próstata. Muitos cânceres desse órgão utilizam hormônios masculinos, entre eles a testosterona, para favorecer seu crescimento. Alguns tratamentos, aliás, procuram reduzir sua produção pelo organismo ou impedir sua ação sobre as células cancerosas.
Seria, no entanto, prematuro concluir que essa bactéria favorece o câncer. Os pesquisadores demonstraram uma capacidade bioquímica em condições de laboratório. Eles não estabeleceram que a testosterona produzida por esses micróbios chega a um tumor, nem que modifica seu desenvolvimento em uma pessoa.
O trabalho amplia sobretudo o que se sabe sobre a microbiota urinária, isto é, o conjunto de microrganismos presentes no trato urinário. Essas bactérias não estão apenas presentes: algumas podem transformar moléculas produzidas pelo próprio organismo e, potencialmente, modificar seu ambiente imediato.
Os pesquisadores agora dispõem de dois genes específicos para estudar em outras bactérias e em amostras humanas. Ainda é preciso, especialmente, avaliar se essa produção de testosterona ocorre de fato no trato urinário e em quantidade suficiente para produzir um efeito biológico.