Traços de DNA revelam que o cacau era consumido na atual Geórgia, nos Estados Unidos, há quase 1.000 anos.
A descoberta vem do sítio de Etowah, uma antiga cidade indígena localizada no sudeste dos Estados Unidos. Arqueólogos haviam encontrado ali fragmentos de cerâmica que datam dos séculos XI e XII. Dois desses fragmentos contêm minúsculas sequências de DNA pertencentes ao cacaueiro, Theobroma cacao.

Vagens de cacau abertas mostrando as sementes que contêm.
Crédito: Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.
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O resultado é surpreendente por uma razão simples: o cacaueiro é uma planta tropical que não cresce naturalmente na Geórgia. O cacau encontrado em Etowah, ou um produto fabricado a partir dele, portanto, teve de percorrer uma grande distância antes de chegar ao sítio. O trajeto exato permanece desconhecido.
Essa descoberta também resolve uma antiga incerteza. Uma análise anterior de 31 fragmentos de cerâmica de Etowah havia detectado várias substâncias presentes no cacau. Mas essas mesmas moléculas também existem no azevinho yaupon, uma planta local usada para preparar uma bebida que contém cafeína. As análises químicas, sozinhas, não permitiam decidir.
Desta vez, os pesquisadores procuraram diretamente o DNA do cacaueiro em três amostras. Após o sequenciamento e vários filtros destinados a excluir outras espécies, identificaram sequências próprias de Theobroma cacao (cacaueiro) em duas peças de cerâmica. Os fragmentos de DNA eram muito curtos, com características compatíveis com material genético antigo e degradado.
Ainda é preciso ter cautela. Apenas dois recipientes forneceram sequências específicas de cacau suficientes para ultrapassar o limiar definido pelos pesquisadores. As peças de cerâmica também haviam sido lavadas após sua descoberta, na década de 1950. A equipe, portanto, aplicou procedimentos rigorosos para limitar o risco de contaminação das amostras por DNA moderno.
O contexto arqueológico traz outra informação. Essas peças de cerâmica vêm de fossas que continham ossos de animais, fragmentos de cerâmica e restos orgânicos associados a banquetes. As fossas foram posteriormente utilizadas durante a construção do primeiro grande monte de terra de Etowah. O cacau poderia, assim, ter sido consumido durante reuniões coletivas.
O cacau já havia sido identificado muito mais a oeste, especialmente em Chaco Canyon, no atual Novo México. Etowah amplia essa presença até o sudeste dos Estados Unidos. No entanto, nenhuma evidência arqueológica permite ainda traçar uma rota direta entre Etowah e as regiões produtoras de cacau da América Central.
Os pesquisadores agora querem procurar DNA de cacau em outros sítios. Cerâmicas provenientes, sobretudo, dos vales do Ohio e do Mississippi já haviam revelado moléculas compatíveis com o cacau, mas também com o azevinho yaupon. A análise genética poderá determinar se o cacau circulava ainda mais amplamente na América do Norte antes da chegada dos europeus.