Como um pinto consegue força suficiente para quebrar sua casca? 🐣

Por Anne Duittoz (Professora de Fisiologia Animal, Universidade de Tours) & Sophie Réhault-Godbert (Diretora de Pesquisa, Inrae)

Ao preparar sua omelete, pode ser que você tenha que bater várias vezes para quebrar seus ovos. Então, como é que um pinto consegue força suficiente para sair da sua casca?

Imagem de ilustração Pixabay

Imagem de ilustração Pixabay

O ovo é uma estrutura fechada que permite o desenvolvimento de um embrião e do futuro pintinho. Ele fornece todos os nutrientes essenciais para o desenvolvimento do embrião até a eclosão. Garante as trocas gasosas de O2 e CO2 para que o embrião possa respirar e também oferece proteção física, através da casca, e molecular, graças a proteínas antimicrobianas muito eficazes.

O ovo se forma na galinha em seu sistema reprodutor, composto de um ovário, onde diversos ovos estão em formação, e de um tubo de aproximadamente 70 cm chamado oviduto, formado por diferentes segmentos de tecido, cada um responsável por uma parte do ovo.

Formação do ovo no sistema reprodutor da galinha.

Formação do ovo no sistema reprodutor da galinha. A maior gema é ovulada na parte superior do oviduto e se rodeia dos outros componentes do ovo. Do momento da ovulação até a postura, o processo dura de 23 a 24 horas.
INRAE, Centro Val de Loire, Fornecido pelo autor

Uma vez ovulada, a maior gema é captada pelo primeiro segmento do oviduto, chamado infundíbulo. É o local da fertilização e das primeiras divisões celulares do embrião. O ovo então passa pelo segundo segmento, chamado magnus, que deposita as proteínas da clara, e depois chega ao terceiro segmento (o istmo), responsável pelo depósito das membranas da casca (pequenas "peles" brancas ligadas ao interior da casca). O ovo, em seguida, passa pelo útero, onde a casca se forma e onde ele permanece por 17 a 18 horas durante o período total de 24 horas da formação do ovo.

A casca do ovo, uma cerâmica futurista

A casca é composta por cristais de carbonato de cálcio. O arranjo desses cristais permite que a casca do ovo da galinha resista a uma força de aproximadamente 40 Newtons (ou seja, 4 kg em pressão estática). Os primeiros cristais se formam nas membranas da casca e crescem perpendicularmente a elas.

Esse crescimento dos cristais ocorre de acordo com uma orientação específica, devido a proteínas secretadas em momentos precisos da formação da casca, no útero. A estrutura da casca de um ovo revela formas semelhantes a cones alongados cuja base repousa sobre as membranas da casca. Alguns deles se fundem, outros não, permitindo assim a criação de poros que facilitam as trocas gasosas para que o embrião possa respirar.

Embora alguns mecanismos de formação dos cristais tenham sido elucidados, a formação natural de tal estrutura em baixa pressão e baixa temperatura (41°C na galinha) ainda esconde mistérios que os ceramistas gostariam de desvendar para se inspirarem (biomimetismo).

Se a casca é tão resistente, como o pinto a quebra?

A casca não é "apenas" uma barreira física de proteção. Também é uma fonte de minerais, especialmente cálcio, necessário para a formação do esqueleto do embrião. Durante a segunda metade do desenvolvimento do embrião, a face interna da casca é progressivamente solubilizada e parcialmente degradada na base dos cones. Esse processo leva à dissolução dos cristais de carbonato de cálcio, assim como o vinagre dissolve o calcário.

O cálcio liberado é reabsorvido e transportado até o embrião pelos vasos sanguíneos, assegurando a mineralização do esqueleto do embrião. Ao mesmo tempo, a dissolução do cálcio da casca fragiliza essa biocerâmica, o que facilita a saída do pintinho no momento da eclosão.

Um pinto bem musculoso

Duas estruturas específicas também contribuem para a saída do pintinho. Primeiro, entre o 10º e o 21º dia, um músculo transitório muito poderoso no pescoço auxilia os movimentos da cabeça do pinto, permitindo que ele quebre a casca. Ao mesmo tempo, uma protuberância dura surge na ponta do bico.

Essa estrutura, chamada de "diamante", será usada para quebrar a casca quando o pinto estiver na posição de emergência. Após a eclosão, o diamante cai e o músculo transitório do pescoço degenera. Essas duas estruturas não são encontradas no adulto.

A partir do 17º dia, o pinto começa a ficar apertado dentro da casca. Ele vai dobrar a cabeça sob a asa direita e direcionar o bico para a bolsa de ar, perfurando-a no 18º dia com movimentos de cabeça provocados pela contração e extensão do músculo do pescoço.

Ressonância magnética de um embrião após 17 dias de desenvolvimento.

Ressonância magnética de um embrião após 17 dias de desenvolvimento. O bico do embrião se posiciona gradativamente para o topo do ovo. Nesta fase, a clara não é mais visível, pois foi completamente absorvida pelo embrião por via oral. INRAE, Centro Val de Loire, Fornecido pelo autor

A respiração pulmonar entra em funcionamento. A demanda de oxigênio do pintinho aumenta cada vez mais, e as trocas gasosas pelos poros da casca ou pela respiração na câmara de ar já não são suficientes. O teor de CO2 no sangue do pinto aumenta progressivamente.

Entre o 19º e o 20º dia, por causa da falta de oxigênio, os músculos começam a se contrair periodicamente com frequência e amplitude cada vez maiores. Esses mecanismos provocam extensões das patas que impulsionam o pinto para cima contra a casca e contrações do músculo transitório do pescoço, que projeta a cabeça e o bico contra a casca.

O diamante, com sua forma piramidal, vai fraturando a casca ao se inserir entre os cones da mesma, um trabalho facilitado pelo fato de a casca estar fragilizada. Movimentos das patas fazem o pinto girar e o buraco na casca se alargar. O pintinho empurra com as patas e se estica, quebrando completamente a casca. É a eclosão.