🦠 Descoberta de um mecanismo de sobrevivência do estafilococo dourado no sangue

O estafilococo dourado é uma das principais causas de infecção bacteriana no mundo, responsável especialmente por infecções hospitalares. Cientistas da INRAE, do CEA e do CNRS descobriram como essa bactéria consegue sobreviver no ambiente hostil do sangue.

O estafilococo dourado detecta o heme, uma molécula tóxica para as bactérias, por meio de um biossensor específico que desencadeia a síntese de uma barreira protetora em sua superfície. Esse mecanismo permite o progresso da infecção devido à sobrevivência e multiplicação desse patógeno no sangue. A descoberta do funcionamento desse sensor abre perspectivas para novas estratégias antibióticas contra o estafilococo dourado. Esses resultados são publicados na revista mBio.

ilustração Descoberta de um mecanismo de sobrevivência do estafilococo dourado no sangue.

ilustração Descoberta de um mecanismo de sobrevivência do estafilococo dourado no sangue.
© INRAE - Régine Talon

As infecções bacterianas são a segunda causa de morte no mundo e o estafilococo dourado, Staphylococcus aureus, está entre as bactérias mais letais. Em 2019, o estafilococo dourado teria sido a causa de mais de 1 milhão de mortes no mundo e de mais de 16.000 na França, segundo um estudo publicado em 2022 na The Lancet.

Na França, é um dos principais germes causadores de infecções hospitalares e intoxicações alimentares. Atualmente, os antibióticos continuam sendo o tratamento mais eficaz, mas algumas cepas resistentes estão surgindo, o que representa um risco de impasse terapêutico. Nesse contexto, uma equipe de pesquisa da INRAE, em colaboração com o CEA e o CNRS, estuda há vários anos o estafilococo dourado e, especialmente, como ele consegue sobreviver no sangue.

O sangue: um ambiente hostil para as bactérias

O sangue dos mamíferos contém glóbulos vermelhos, encarregados de transportar oxigênio. Essas células contêm em grande quantidade uma molécula chamada heme, que serve especialmente para fixar o oxigênio. Mas o heme é tóxico para as bactérias ou outras células se estiver fora dos glóbulos vermelhos. No entanto, se entrarem na corrente sanguínea, bactérias patogênicas, como o estafilococo dourado, provocam hemólise, ou seja, a ruptura dos glóbulos vermelhos e a liberação do heme. Elas podem então entrar em contato com o heme, que é tóxico para elas.

Os cientistas descobriram que o estafilococo dourado é capaz de detectar o heme graças a um sensor específico denominado HssS presente em sua membrana. Quando detecta o heme, esse sensor desencadeia um mecanismo de defesa no estafilococo dourado que sintetiza uma bomba de efluxo do heme, um mecanismo que remove o heme para fora da bactéria. Isso cria uma barreira protetora que permite que ele sobreviva no sangue e progrida na infecção. Experimentos em laboratório mostram que os estafilococos dourados desprovidos do sensor HssS, e, portanto, incapazes de detectar o heme, têm uma virulência bastante enfraquecida.

Uma pista para novas estratégias antibióticas inovadoras

Diante dos desafios da resistência aos antibióticos, esses resultados abrem novas possibilidades de estratégias antibióticas para combater o estafilococo dourado, buscando moléculas inibidoras do sensor HssS que diminuiriam sua virulência. Além disso, como o sensor HssS é específico de bactérias patogênicas, as estratégias antibióticas que visam esse sensor seriam mais direcionadas e, teoricamente, não afetariam outras bactérias benéficas ao nosso organismo, como as que constituem a microbiota intestinal.