O magnetismo das estrelas parece deixar vestĂgios muito depois da sua morte. Cientistas descobriram o que chamam de "magnetização fĂłssil" em cadĂĄveres estelares: as anĂŁs brancas. Esta observação pode revelar como as estrelas passam da sua fase de gigante vermelha para a de anĂŁ branca, um destino que aguarda o nosso Sol.
Para compreender esta ligação, Ă© necessĂĄrio acompanhar a vida de uma estrela como o Sol. Depois de esgotar o seu hidrogĂ©nio, o seu nĂșcleo colapsa enquanto as suas camadas externas incham desmesuradamente, formando uma gigante vermelha. Em seguida, essas camadas dispersam-se, deixando para trĂĄs um nĂșcleo compacto e ardente: a anĂŁ branca.
O nĂșcleo quente de uma estrela gigante vermelha se tornarĂĄ a futura anĂŁ branca. CrĂ©dito: Paul Beck (KU Leuven, BĂ©lgica)
A equipa de investigação utilizou as oscilaçÔes das estrelas, ou "tremores estelares", para sondar os seus interiores. Esta tĂ©cnica, a astrossismologia, funciona como a sismologia terrestre com os terramotos. Ela revelou que as gigantes vermelhas possuem um campo magnĂ©tico no seu nĂșcleo, enquanto as anĂŁs brancas mostram um Ă sua superfĂcie. Os investigadores desenvolveram entĂŁo um modelo que liga estas duas observaçÔes, baseado na ideia de "campo fĂłssil".
Segundo este modelo, o campo magnĂ©tico nĂŁo se limita ao nĂșcleo das gigantes vermelhas, mas estende-se por uma maior parte da estrela. Ao envelhecer, este campo reorganiza-se em forma de cascas, mais fortes perto da superfĂcie do que no nĂșcleo.
Esta descoberta tem implicaçÔes diretas para o nosso Sol. Atualmente, os astrĂłnomos ignoram se o nĂșcleo do Sol Ă© magnĂ©tico. Se fosse o caso, isso alteraria todas as previsĂ”es sobre a sua vida Ăștil.
Um campo magnĂ©tico poderia, de facto, misturar o hidrogĂ©nio das camadas externas com o nĂșcleo, prolongando assim a vida da estrela. Mas tambĂ©m poderia ter efeitos opostos. Os investigadores esperam que os seus trabalhos permitam compreender melhor o que se esconde nas profundezas da nossa estrela.
Como a evolução de uma estrela modifica a forma do seu campo magnético. As simulaçÔes sugerem estruturas em casca (linhas cor-de-rosa). Crédito: Lukas Einramhof | ISTA
O estudo foi publicado na revista
Astronomy & Astrophysics . Ele mostra que o magnetismo estelar pode ser muito mais difundido do que se pensa, mesmo que Ă s vezes seja difĂcil de detetar. Como recorda Lukas Einramhof, "nem sempre podemos detetar este magnetismo, mas os nossos trabalhos indicam que a maioria das estrelas Ă© provavelmente magnĂ©tica."