Por que sentimos esse alívio agradável que nos faz parar de coçar após satisfazer uma coceira? Essa sensação de "exatamente o suficiente", que parece instintiva, na verdade se baseia em um mecanismo biológico muito preciso, conforme estabelece uma pesquisa recente.
Na verdade, os cientistas identificaram um canal iônico chamado TRPV4 como um elemento central nesse processo. Presente em certas células nervosas sensoriais, este canal contribui para o envio de um sinal de feedback negativo para o cérebro e a medula espinhal. Esta mensagem interna indica que o ato de coçar foi suficiente e que é hora de parar, evitando assim lesões desnecessárias na pele.
Para chegar a esses resultados, as experiências foram realizadas em ratos geneticamente modificados, nos quais o TRPV4 foi removido apenas nos seus neurónios sensoriais. Após induzir um estado de coceira crônica semelhante ao eczema, os pesquisadores observaram que os ratos desprovidos deste canal se coçavam com menos frequência, mas que cada episódio durava muito mais tempo do que o normal. Esta observação pode parecer estranha à primeira vista.
A equipa esclarece que, sem o TRPV4 funcional nos neurónios, o sinal de parada não é enviado. Consequentemente, os ratos não sentem essa sensação de satisfação que limita naturalmente o ato de coçar. Eles persistem, portanto, em se coçar de forma excessiva, o que pode agravar as lesões cutâneas e o desconforto.
Esta descoberta tem impacto em certas abordagens terapêuticas consideradas. Bloquear completamente o TRPV4 em todo o organismo pode não ser uma estratégia ideal, pois este canal provavelmente tem funções diferentes dependendo de estar na pele ou nos neurônios. Na pele, ele poderia justamente participar no surgimento da sensação de coceira em si.
As coceiras crônicas afetam muitas pessoas com condições como eczema ou psoríase. Além disso, compreender como nosso corpo determina o momento de parar de coçar abre novas perspectivas para conceber tratamentos mais direcionados e eficazes. Terapias futuras poderiam, assim, visar especificamente a pele sem perturbar o mecanismo neuronal de regulação.
As coceiras persistentes e seus fundamentos biológicos
Também chamadas de pruridos persistentes, as coceiras crônicas são sensações que duram mais de seis semanas. Frequentemente associadas a doenças de pele como eczema ou psoríase, elas também podem ocorrer em casos de problemas renais, hepáticos ou de certos cancros. Ao contrário das coceiras passageiras, elas resistem aos tratamentos clássicos e prejudicam notavelmente a qualidade de vida.
Do ponto de vista biológico, as coceiras envolvem uma rede de neurônios especializados na detecção e transmissão da sensação ao cérebro. Diferentes moléculas, como a histamina, são capazes de ativar esses neurônios ao se ligarem a receptores específicos em sua superfície. O sinal percorre depois a medula espinhal até às áreas cerebrais responsáveis pelo processamento das sensações e emoções.
Diagrama ilustrando a localização do canal TRPV4 nos neurônios sensoriais e sua implicação no comportamento de coçar. Crédito: Roberta Gualdani
Nas formas duradouras, este sistema de sinalização pode tornar-se hiperativo ou disfuncional. Por exemplo, uma inflamação cutânea prolongada pode sensibilizar os neurônios, tornando-os mais reativos a estímulos habitualmente inofensivos. O dispositivo de regulação, como o que envolve o TRPV4, também pode ser afetado, impedindo a interrupção natural do ato de coçar.
Os trabalhos em curso procuram localizar as etapas precisas onde este sistema falha, a fim de elaborar terapias que restaurem o equilíbrio sem gerar efeitos secundários. O objetivo final é aliviar os pacientes sem simplesmente mascarar os sintomas, atacando as origens profundas do distúrbio.