22 milhĂ”es de exemplares vendidos no mundo em 2025, dos quais 10 milhĂ”es apresentados como educativos. No entanto, ninguĂ©m pode dizer com certeza o que essas pequenas mĂĄquinas fazem ao cĂ©rebro de uma criança de trĂȘs anos. As promessas comerciais sĂŁo rĂĄpidas, a pesquisa, por sua vez, permanece estagnada.
Os brinquedos dotados de inteligĂȘncia artificial generativa imitam a conversa humana. Eles deveriam se tornar companheiros, amigos, atĂ© mesmo professores particulares. Mas as primeiras observaçÔes realizadas pela Universidade de Cambridge mostram uma lacuna preocupante entre o marketing e a realidade das interaçÔes.
O que realmente se observa quando uma criança brinca com um desses robÎs
A Universidade de Cambridge filmou 14 crianças pequenas interagindo com um ursinho de pelĂșcia conectado chamado Gabbo. Os pesquisadores constataram que o robĂŽ frequentemente confunde a voz do pai/mĂŁe com a da criança. Resultado: a brincadeira social, essencial para aprender a cooperar e compartilhar, torna-se caĂłtica.
O brinquedo também falha no que chamamos de "brincadeira simbólica". Quando um pequeno lhe diz que é hora de dormir, Gabbo simplesmente responde que não dorme, quebrando assim o imaginårio. Pior ainda, uma criança de 5 anos que diz "eu te amo" ouve como resposta uma mensagem padronizada sobre o respeito às instruçÔes de uso.
Os pesquisadores questionam a compreensĂŁo que as crianças tĂȘm da natureza real desses objetos. Uma criança pequena nem sempre distingue um ser vivo real de um algoritmo. Ela corre o risco de desenvolver uma relação dita parassocial, ou seja, um apego unidirecional e sem reciprocidade emocional verdadeira.
Riscos concretos para a privacidade e segurança dos mais jovens
Os ursinhos de pelĂșcia inteligentes embutem microfones, cĂąmeras e, Ă s vezes, reconhecimento facial. No entanto, nenhuma regulamentação especĂfica controla esses dispositivos. Recolhas de produtos jĂĄ ocorreram depois que alguns robĂŽs proferiram comentĂĄrios de carĂĄter sexual com menores.
Ćukasz KamieĆski, bioeticista polonĂȘs, destaca que esse vĂĄcuo jurĂdico expĂ”e as crianças a sĂ©rios desvios. AlĂ©m das conversas inadequadas, esses brinquedos podem difundir desinformação ou propaganda de forma insidiosa, sem que um pai consiga controlar facilmente.
Os fabricantes não são obrigados a publicar os dados de treinamento de seus modelos de linguagem, nem as proteçÔes de software. Os pais, portanto, ignoram o que o aparelho realmente grava, onde esses dados são armazenados e quem pode acesså-los. Uma opacidade total.
O que deveria ser feito para que esses brinquedos se tornem aceitĂĄveis?
Os especialistas exigem uma rotulagem obrigatĂłria, comparĂĄvel Ă s tabelas nutricionais dos alimentos. Cada caixa deveria indicar claramente o modelo de linguagem utilizado, a natureza dos dados de treinamento e os limites programados. Assim, as famĂlias poderiam fazer uma escolha informada.
Senadores americanos jĂĄ interpelaram os fabricantes, lembrando que a segurança das crianças nĂŁo deve vir depois do lucro. Mas, por enquanto, essas cartas permanecem sem efeito. Os pesquisadores insistem na urgĂȘncia de realizar estudos longitudinais.
Enquanto a ciĂȘncia nĂŁo medir o impacto real no desenvolvimento cognitivo e emocional, a prudĂȘncia se impĂ”e. Os primeiros anos de vida sĂŁo uma janela crĂtica durante a qual a interação humana autĂȘntica alimenta o cĂ©rebro. Confiar essa missĂŁo a uma mĂĄquina sem reflexĂŁo seria uma experimentação em larga escala.
Para saber mais: O que é uma relação parassocial na criança?
Uma relação parassocial designa um apego afetivo unidirecional. A criança dĂĄ amor, confiança, confidĂȘncias a um ser que nĂŁo retribui nada porque nĂŁo tem vida interior.
Com um brinquedo que fala, a criança pode acreditar em uma reciprocidade. Ela pode acabar se confiando apenas à måquina, em vez de a um adulto, e esperar conforto onde não hå.
Os pesquisadores temem que isso prejudique o desenvolvimento da empatia e da regulação emocional, duas competĂȘncias que se constroem atravĂ©s da troca verdadeira com um humano atento.
Por que a brincadeira simbĂłlica Ă© tĂŁo importante antes dos cinco anos?
A brincadeira simbĂłlica Ă© "fazer de conta": dar comida a uma boneca, colocar um ursinho de pelĂșcia para dormir, imaginar-se um super-herĂłi. Ela permite que a criança represente o mundo e teste papĂ©is sociais.
Esse tipo de brincadeira desenvolve a linguagem, o planejamento, a cooperação e a compreensão das emoçÔes alheias. Uma criança que faz de conta aprende a lidar com situaçÔes que ainda não domina.
Se um robÎ se recusa a entrar nessa brincadeira (por exemplo, dizendo que não dorme), ele interrompe o aprendizado. A criança perde a oportunidade de experimentar, pois a måquina impÔe uma lógica literal onde o imaginårio deveria reinar.