đŸ§Ș Nossas cĂ©lulas escondem reservas de enxofre

Nossas células abrigam reservas de enxofre puro, uma forma de armazenamento que nem sequer sabíamos existir nos mamíferos.

Uma equipe internacional detectou esse enxofre em cĂ©lulas humanas e de camundongos. Ele assume a forma de pequenas molĂ©culas compostas por oito ĂĄtomos dispostos em anel, chamadas S₈. AtĂ© agora, a produção de enxofre elementar era conhecida sobretudo em microrganismos, bem como em algumas plantas e alguns fungos.

Enxofre purificado

Enxofre purificado

Esses anéis não estão distribuídos ao acaso. Eles se acumulam principalmente nas mitocÎndrias, as estruturas que fornecem grande parte da energia às células. Também são encontrados em grande quantidade nas gotículas lipídicas, pequenas reservas de gordura presentes no interior das células. As concentraçÔes medidas podem atingir vårios milimoles por litro.

Para entender sua importĂąncia, Ă© preciso observar o que acontece com as gorduras das membranas celulares. Algumas podem reagir com o oxigĂȘnio e se degradar. Essa oxidação produz entĂŁo uma reação em cadeia capaz de danificar gravemente a membrana. Se ficar descontrolada, pode provocar uma forma especĂ­fica de morte celular relacionada ao ferro, chamada ferroptose.

O S₈ parece participar de uma defesa contra esse fenĂŽmeno. A cĂ©lula pode recorrer a essa reserva para fabricar molĂ©culas sulfuradas que atuam como antioxidantes. Os pesquisadores constataram que o acĂșmulo de S₈ nas gotĂ­culas lipĂ­dicas reduzia a oxidação das gorduras e tornava as cĂ©lulas menos sensĂ­veis Ă  ferroptose.

MolĂ©cula S₈

MolĂ©cula S₈
Imagem Wikimedia

Outra surpresa: uma enzima jå bastante conhecida participa dessa produção. Chamada eNOS, ela normalmente produz óxido nítrico, uma molécula que, entre outras funçÔes, ajuda os vasos sanguíneos a relaxar. O estudo atribui a ela uma segunda atividade: também contribui para a produção dos anéis de enxofre nas células.

Os pesquisadores tambĂ©m testaram essa hipĂłtese em camundongos com um modelo de osteoartrite. O S₈ solubilizado e depois injetado na articulação reduziu a oxidação das gorduras nos tecidos afetados. Esse resultado permite estudar diretamente o papel protetor dessa reserva de enxofre em um organismo vivo.

Outras observaçÔes agora levantam novas questĂ”es. Os autores mediram, em particular, mais S₈ em tecidos afetados por cĂąncer de mama do que em tecidos mamĂĄrios nĂŁo cancerosos. Ainda Ă© preciso determinar por que essa quantidade aumenta e se ela ajuda algumas cĂ©lulas doentes a resistir Ă  ferroptose. Esses trabalhos poderĂŁo esclarecer o papel do enxofre em vĂĄrios mecanismos relacionados aos danos celulares.