Nossas cĂ©lulas abrigam reservas de enxofre puro, uma forma de armazenamento que nem sequer sabĂamos existir nos mamĂferos.
Uma equipe internacional detectou esse enxofre em cĂ©lulas humanas e de camundongos. Ele assume a forma de pequenas molĂ©culas compostas por oito ĂĄtomos dispostos em anel, chamadas Sâ. AtĂ© agora, a produção de enxofre elementar era conhecida sobretudo em microrganismos, bem como em algumas plantas e alguns fungos.

Enxofre purificado
Esses anĂ©is nĂŁo estĂŁo distribuĂdos ao acaso. Eles se acumulam principalmente nas mitocĂŽndrias, as estruturas que fornecem grande parte da energia Ă s cĂ©lulas. TambĂ©m sĂŁo encontrados em grande quantidade nas gotĂculas lipĂdicas, pequenas reservas de gordura presentes no interior das cĂ©lulas. As concentraçÔes medidas podem atingir vĂĄrios milimoles por litro.
Para entender sua importĂąncia, Ă© preciso observar o que acontece com as gorduras das membranas celulares. Algumas podem reagir com o oxigĂȘnio e se degradar. Essa oxidação produz entĂŁo uma reação em cadeia capaz de danificar gravemente a membrana. Se ficar descontrolada, pode provocar uma forma especĂfica de morte celular relacionada ao ferro, chamada ferroptose.
O Sâ parece participar de uma defesa contra esse fenĂŽmeno. A cĂ©lula pode recorrer a essa reserva para fabricar molĂ©culas sulfuradas que atuam como antioxidantes. Os pesquisadores constataram que o acĂșmulo de Sâ nas gotĂculas lipĂdicas reduzia a oxidação das gorduras e tornava as cĂ©lulas menos sensĂveis Ă ferroptose.

MolĂ©cula Sâ
Imagem Wikimedia
Outra surpresa: uma enzima jĂĄ bastante conhecida participa dessa produção. Chamada eNOS, ela normalmente produz Ăłxido nĂtrico, uma molĂ©cula que, entre outras funçÔes, ajuda os vasos sanguĂneos a relaxar. O estudo atribui a ela uma segunda atividade: tambĂ©m contribui para a produção dos anĂ©is de enxofre nas cĂ©lulas.
Os pesquisadores tambĂ©m testaram essa hipĂłtese em camundongos com um modelo de osteoartrite. O Sâ solubilizado e depois injetado na articulação reduziu a oxidação das gorduras nos tecidos afetados. Esse resultado permite estudar diretamente o papel protetor dessa reserva de enxofre em um organismo vivo.
Outras observaçÔes agora levantam novas questĂ”es. Os autores mediram, em particular, mais Sâ em tecidos afetados por cĂąncer de mama do que em tecidos mamĂĄrios nĂŁo cancerosos. Ainda Ă© preciso determinar por que essa quantidade aumenta e se ela ajuda algumas cĂ©lulas doentes a resistir Ă ferroptose. Esses trabalhos poderĂŁo esclarecer o papel do enxofre em vĂĄrios mecanismos relacionados aos danos celulares.